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lundi 11 août 2008

Moda e Guerra

Apesar de ter sido considerado, por muitos anos, no Brasil em particular, um assunto frívolo, a moda possui grande importância social. Através dela é possível traçar panoramas bastante representativos de ambientes políticos, econômicos e culturais de cada época. Em vista disto, autores como a historiadora (francesa) Dominique Veillon, através de sua obra Moda & Guerra – Um Retrato da França Ocupada (Jorge Zahar, 270 págs), têm contribuído para devolver a essa industria o valor, por tanto tempo, a ela relegado.
Misturar dois assuntos, em principio, antagônicos, pode parecer estranho. Mas basta começar a leitura para entender a legitimidade da associação. O livro de Veillon mostra como a costura parisiense – que colaborava, na época, para “a subsistência de 20.000 operários e 500 funcionários, além de ter influência direta sobre a vida de outras industrias: têxteis, sedas, peles, rendas, etc.”(pág. 34) – se manteve em funcionamento apesar dos imperativos impostos pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial.
“No intervalo de uma estação, a vida cotidiana se degradou consideravelmente para uma maioria dos franceses” (pág. 73). Obrigados a disporem de tíquetes para a aquisição de uma cota determinada de gêneros alimentícios, as restrições alcançaram também o vestuário. “Tudo o que toca a moda vê-se atingido pela crise. Em janeiro de 1941 cria-se bônus de calçados e em julho, do mesmo anos, entra em circulação o cartão de vestuário” (pág. 73). Para uma sociedade que se orgulha de ser a vitrine para mundo e que não pretende abandonar tal status, parece impossível a adaptação às regras alemãs. No entanto, a criatividade e o empenho na descoberta de alternativas para a escassez de matéria prima dão resultados. Ainda que seja preciso usar toda a sorte de material: das cortinas de casa aos fios de cabelos deixados nos salões ou recolhidos nos campos de concentração. Tudo é aproveitado.
Os acessórios também ajudam a manter um certo glamour que os trajes perderam. Alguns até ganham ares de símbolo de resistência.
“O chapéu consola uma época sem sorrisos, quando não, ao se optar por uma farsa, por ser um jeito de zombar do ocupante, uma espécie de nariz do mundo. O senhor do momento é ele” (pág. 114).
Apesar de não seguir uma cronologia linear e, assim, acabar se repetindo, Veillon apresenta um texto bastante cativante e consegue prender a atenção do leitor, presenteado-o, ao fim, com a descrição do momento exato em que, após tantas transformações, surge um novo modo de vestir-se, apresentado nas criações de Christian Dior."
Desta vez, a página está virada, a guerra de fato acabou, o estilo new look se lança à conquista do mundo, ao mesmo tempo em que se presta a adaptações múltiplas, em que, o prêt-à-porter ocupará um espaço cada vez maior”. Sem dúvida uma história que vale a pena ser lida. Então.. boa leitura.

......

P.S.: Agradecimento:

Obrigada Digestivo Cultural, pelos novos leitores.

lundi 7 avril 2008

Relatos de uma guerra POP


Criticar os clássicos ou obras tidas como indispensáveis, embora possa parecer, não é um prazer para mim. Ao contrário, faz-me pensar, às vezes, que talvez o problema se dê pela minha falta de requinte intelectual.
Será que sou incapaz de apreciar a verdadeira essência literária? Ou são os eruditos quem exageram na valorização de alguns exemplares? Talvez, ainda, a culpa possa ser divida com o tempo, que seria o real responsável por esta (nossa) incompatibilidade?! Não sei ao certo (gosto não se discute?). Mas... basta um livro ser classificado com adjetivos exultantes para que eu não consiga encontrar nele o mesmo júbilo de outros leitores.
Foi o que ocorreu com Despachos do Front de Michael Herr, considerado o mais brilhante tratamento literário sobre o Vietnã. O volume fez tanto sucesso que o cineasta americano Francis Ford Coppola convidou o autor a colaborar com ele na produção de Apocalypse Now – película de 1979 que mudou o gênero de filmes de guerra e se fixou no imaginário pop. Aliás, o livro é impregnado de referências musicais e fílmicas típicos desta cultura (pop). Advêm daí o apresso, também, dos (mais) modernos.
No entanto, para mim, a coisa toda acabou tendo um efeito colateral: a supressão do ritmo de leitura. O que de forma alguma significa o desprezo, de minha parte, pela obra. Reconheço em absoluto o seu valor. À propósito, há passagens interessantíssimas sobre a vida dos correspondentes (assunto que tenho particular interesse) e fatos curiosos, como a presença de estudantes universitários, em férias, que colaboravam com seu jornal do campus (págs. 217-218).

* Somente no auge da Ofensiva do Tet havia entre seiscentos e setecentos correspondentes credenciados pelo Comando de Assistência Militar em Saigon. (...) Não havia nação pobre demais, jornal de cidade do interior tão humilde que não pudesse mandar alguém para dar uma olhada pelos menos uma vez. Estes coleguinhas, como chama Herr, por vezes escreviam suas matérias baseadas apenas em releases e no que as autoridades mandavam eles escreverem.

* Éramos chamados de viciados em perigo, abutres, lambe-feridas, fanáticos por guerra, adoradores de heróis, veados enrustidos, drogados, alcoólatras, vampiros comunistas, traidores, mais xingamentos do que consigo lembrar. Muitas pessoas nas Forças Armadas jamais perdoaram o general Westmoreland por não ter nos imposto restrições quando teve a oportunidade nos primeiros dias de guerra. Alguns oficiais e muitos soldados aparentemente ingênuos acreditavam que, se não fosse por nós, não haveria mais guerra, e nunca fui capaz de discutir com nenhum deles a respeito (págs. 224-225).

Apesar dos muitos detalhes instigantes, fui incapaz de me entusiasmar e acabei estendendo a leitura por um mês. As primeiras 70 páginas até fluíram bem, mesmo com tantas gírias dos anos 1960 e de toda a linguagem militar. Porém, dali em diante, o ritmo fôra oscilando. O que me leva a questionar o esplendor da obra. Ainda assim, não a desaconselho de um todo. Afinal, ler sempre vale a pena, principalmente quando os relatos revelam fatos reais da nossa história (do mundo). Então... mãos ao livro!

Ilustração: Moidsch