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lundi 15 mars 2010

Minha vida sem mim


Às vezes parece que estou vivendo em um corpo alheio. Que minha alma se perdeu (em algum momento) e outra pessoa assumiu o comando cerebral. Coisas que( jamais) se quer pensei em fazer, são praticamente rotina. Outras que desejava com veemência acabaram deixadas de lado. Tudo mudou. Mas, apesar de ter descoberto o que, de fato, é a felicidade, não sei se dentro de mim essa mudança foi (mesmo) para melhor.
Talvez a leitura de Minha razão de viver: memórias de um repórter, de Samuel Wainer, esteja provocando em mim um certo saudosismo precoce de minhas convicções profissionais e da dedicação que tive durante minha formação como jornalista. Em verdade, fôra de pouca valia todo o esforço, já que hoje não tenho emprego, meu diploma não vale nada e toda a experiência que adquiri está caducando. O problema é que já não sei mais o que fazer, o que quero ou para onde ir. Então, fico aqui, tentando me reencontrar e conhecendo melhor essa estranha pessoa que comanda minhas ações e que não deseja outra coisa se não aproveitar cada segundo deste mundo novo que o amor verdadeiro e recíproco lhe reservou.

Ilustração: Sujean Rim

lundi 14 septembre 2009

Apenas mais um texto (vazio)


A hora de mudar a capa do livrinho ali do lado passou há tempos, mas minha ausência no mundo virtual me impedia. Foram tantas coisas lidas no semestre passado,e tantas coisas por ler nesse que fiquei sem tempo ou mesmo vontade de mexer aqui. Queria ler mais para falar melhor sobre as coisas. Porém, se for esperar é provável que não comentarei nada. Então... lá vamos nós.
Estou lendo Madame Bovary a conta-gotas. Confesso que sou uma leitora um tanto lerda e quando não consigo me envolver na trama essa lentidão se agrava. De qualquer forma, quarta-feira terá uma aula dedicada a Gustave Flaubert e sua “obra prima”, assim ficarei sabendo tudo o que aconteceu com a insatisfeita Emma. Aliás, já soube que ela morre no final e é provável que vários leitores tenham ficado em êxtase com isso. Fato é que o ritmo do livro não agrada muito e uma vida insossa menos ainda (ta, eu sei que to ainda na segunda parte... mas, não sei não). Talvez na quarta eu descubra o porquê de tanta apreciação a este livro (embora acredite que somente quando eu o ler em francês veja alguma beleza real). Implicância com os clássicos é um saco. Mas, fazer o quê.

Contento-me em saber que a insatisfação não se dá com todos. Afinal, muitos já se salvaram. Um deles é Dom Casmurro. Depois de ver a minissérie da Globo e ter ficado maravilhada com aqueles cenários e a forma narrativa, me entreguei a Machado de Assis e encontrei nele um possível escritor favorito. As críticas que ele fazia a outros livros e escritores também são bastante interessantes. Sempre muito bem embasadas e gostosas de ler, tanto que nem mesmo os autores criticados por ele – como Eça de Queiros – ficaram de todo chateados. Se tivesse mais tempo para me dedicar a leituras extras adoraria ler mais coisas dele. O fato é que depois de entrar no curso de Letras minha lista de obras a ler só tem aumentado, ainda que minhas horas de leitura também estejam no mesmo ritmo. Quanto mais leio, mais coisas tenho por ler, o que acaba me perturbando um pouco. Mas, um dia eu chego lá.


Ilustração: Silja Goetz

lundi 11 août 2008

Moda e Guerra

Apesar de ter sido considerado, por muitos anos, no Brasil em particular, um assunto frívolo, a moda possui grande importância social. Através dela é possível traçar panoramas bastante representativos de ambientes políticos, econômicos e culturais de cada época. Em vista disto, autores como a historiadora (francesa) Dominique Veillon, através de sua obra Moda & Guerra – Um Retrato da França Ocupada (Jorge Zahar, 270 págs), têm contribuído para devolver a essa industria o valor, por tanto tempo, a ela relegado.
Misturar dois assuntos, em principio, antagônicos, pode parecer estranho. Mas basta começar a leitura para entender a legitimidade da associação. O livro de Veillon mostra como a costura parisiense – que colaborava, na época, para “a subsistência de 20.000 operários e 500 funcionários, além de ter influência direta sobre a vida de outras industrias: têxteis, sedas, peles, rendas, etc.”(pág. 34) – se manteve em funcionamento apesar dos imperativos impostos pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial.
“No intervalo de uma estação, a vida cotidiana se degradou consideravelmente para uma maioria dos franceses” (pág. 73). Obrigados a disporem de tíquetes para a aquisição de uma cota determinada de gêneros alimentícios, as restrições alcançaram também o vestuário. “Tudo o que toca a moda vê-se atingido pela crise. Em janeiro de 1941 cria-se bônus de calçados e em julho, do mesmo anos, entra em circulação o cartão de vestuário” (pág. 73). Para uma sociedade que se orgulha de ser a vitrine para mundo e que não pretende abandonar tal status, parece impossível a adaptação às regras alemãs. No entanto, a criatividade e o empenho na descoberta de alternativas para a escassez de matéria prima dão resultados. Ainda que seja preciso usar toda a sorte de material: das cortinas de casa aos fios de cabelos deixados nos salões ou recolhidos nos campos de concentração. Tudo é aproveitado.
Os acessórios também ajudam a manter um certo glamour que os trajes perderam. Alguns até ganham ares de símbolo de resistência.
“O chapéu consola uma época sem sorrisos, quando não, ao se optar por uma farsa, por ser um jeito de zombar do ocupante, uma espécie de nariz do mundo. O senhor do momento é ele” (pág. 114).
Apesar de não seguir uma cronologia linear e, assim, acabar se repetindo, Veillon apresenta um texto bastante cativante e consegue prender a atenção do leitor, presenteado-o, ao fim, com a descrição do momento exato em que, após tantas transformações, surge um novo modo de vestir-se, apresentado nas criações de Christian Dior."
Desta vez, a página está virada, a guerra de fato acabou, o estilo new look se lança à conquista do mundo, ao mesmo tempo em que se presta a adaptações múltiplas, em que, o prêt-à-porter ocupará um espaço cada vez maior”. Sem dúvida uma história que vale a pena ser lida. Então.. boa leitura.

......

P.S.: Agradecimento:

Obrigada Digestivo Cultural, pelos novos leitores.

lundi 16 juin 2008

A exceção


Para toda regra uma exceção. E nesta a prova de que minha implicância com clássicos não é conseqüência de uma suposta falta de requinte intelectual, trata-se apenas de incompatibilidade. Do contrário não teria tanta satisfação ao ler O Retrato de Dorian Gray.
A incontestável genialidade de Oscar Wilde, ligada a uma espécie de Déjà vu, fizeram desta obra o meu éden noturno, nos primeiros dias do mês. A história da tela que envelhece enquanto o retratado nela conserva sua beleza fez parte de meu imaginário infantil. Não lembro onde, nem quando ou como ouvi essa narrativa. No entanto, bastou Dorian Gray enxergar-se na pintura de Basil Hallward e proferir o desejo de imutabilidade, ainda no começo do livro, para meus neurotrasmissores agirem. Lembrei-me imediatamente do desfecho da trama.
O enredo, porém, intrigava-me tanto quando a dúvida sobre onde poderia, eu, ter ouvido tal relato. Assim, toda a transcrição de Wilde, em particular os comentários ácidos de Lorde (Harry) Henry Wotton, foram degustados intensamente e as melhores frases copiadas para o meu caderno de anotações que, com prazer, compartilho, agora, com vocês! Pois, se de fato vivemos em um tempo em que as coisas desnecessárias são nossas únicas necessidades”, nada melhor do que um pouco de sarcasmo para driblar carências.

* “A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais”.
* “O apaixonado começa iludindo-se a si próprio e acaba enganando o outro”
* “Todos os caminhos vão chegar ao mesmo ponto: a desilusão".
* “As coisas de que temos certeza jamais são reais”.
* “Na incerteza é que está o encanto”.
* “A coisa mais comum, se [quando] a ocultamos é um deleite”.
* “O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível”.

Ilustração: Moidsh

mardi 10 juin 2008

Chico Mendes, crime, castigo, Zuenir e eu!

Há fases em que estamos mais propensos às leituras, outras à escrita, assim como momentos nos quais se anseia ser lido ou ouvido, em oposição a outros quando queremos apenas nos entregar aos encantos alheios. E no meio disso, existe, também, aqueles dias em que se tem vontade de tudo, ainda que não se faça nada.
Nos últimos tempos tenho me dedicado à absorção de conhecimento, mais do que ao seu repasse. Resisti ao intuito de escrever, ainda que meus dedos coçassem, para não me desgastar com auto-críticas inúteis. Fiz milhares de textos mentais, sem escrever uma linha no papel ou digitar palavras em arquivos brancos do Word. Mas é impossível fugir para sempre. Meu bloguitcho clama por atualizações (apesar da falta de legentes). Então, cá estou para satisfazer meus anseios vãos e, quem sabe, com a ajuda de Zuenir Ventura, descolar algum novo leitor perdido nesta selva virtual.



A primeira vez em que coloquei meus olhos sobre o livro Chico Mendez: crime e castigo de Zuenir Ventura, ainda na homepage da Companhia das letras, pensei:
Embora este volume faça parte da minha coleção favorita (Jornalismo Literário) tenho medo dele. Estes assuntos factuais, que todos deveríamos saber, me fazem sentir ignorante demais e quase sempre são um pouco desgastantes, exigem concentração e dedicação em demasia.
Bastou, no entanto, ler a primeira página da obra para meus temores se dissiparem. Afinal, com um início como o que se segue, não há como não se encantar.

“No dia em que Chico Mendes ia morrer, 22 de dezembro de 1988, Ilzamar Mendes queria assistir à morte de Odete Roitman. Durante aqueles últimos oito meses, o Brasil parava às 8h30 da noite – 6h30 no Acre – para se revoltar com as maldades da megera sem escrúpulos e sem caráter que se transformara no símbolo de um país que terminava o ano com 900% de inflação, o naufrágio do Bateau Mouche e uma sensação de impunidade generalizada – um país do Vale Tudo, como sugeria o título da novela da TV Globo de que Odete era a vilã.
Se soubesse que a morte anunciada para aquela noite só iria ocorrer na verdade dois dias depois, quase na hora da ceia de Natal, Ilzamar não se apressaria tanto em interromper o jogo de dominó entre o marido Chico Mendes e os seus seguranças, o cabo Roldão e o Soldado Lucas” (pág. 15).


Assim fica fácil perceber a razão pela qual Zuenir fora contemplado com um Prêmio Esso de Jornalismo por essa reportagem, não? E no fim, como a obra é toda dividida em capítulos pequenos: com as matérias redigidas na época; diário de viagem e a seqüência de reportagens 15 anos depois, relatando a conclusão do caso do assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. Você acaba nem percebendo as horas que passou compenetrada na leitura. E, o melhor de tudo, sem a menor chance de se perder entre os fatos históricos. Ao contrário, você se diverte com a forma como ele conduz os relatos, como no trecho em que descreve a boa fama com mulheres e a virilidade do mandante do crime, então com 54 anos e 5 esposas, Darly Alvez da Silva:

“Baixo, esquelético, feio, cego de um olho, dentes ruins, uma úlcera e mau hálito, Darly aparentemente não ostenta qualquer atrativo físico. Aparentemente. Na realidade, todas as suas mulheres encontraram nessa inesperada síntese de Tanatos e Eros encobertos encantos para alimentar um irresistível fascínio” (pág. 153).

Ou ainda, com as anotações do seu diário, quando expõe as situações inusitadas pelas quais passou durante a reportagem.

"Diálogo com seu Aécio Silva, que seria o dono de um barco para alugar:

- O senhor teria um barco com motor para me levar com urgência ao seringal Nova Esperança?
- Teria.
- Que bom! Quanto custa?
- Mas eu não tenho, eu vendi o meu barco ontem.
- Mas o senhor disse que tinha!
- o senhor num perguntou se eu tinha, perguntou se eu teria. Eu disse que teria, num tenho.
Me senti em Portugal" (pág. 113).


Com certeza esse livro vale cada segundo da nossa atenção. Portanto, leiam-no!

Ilustração: Bebel Callage

dimanche 11 mai 2008

O que é felicidade para você (David)?


Há muito tempo não sentia tanta satisfação com um livro. Por isso, apesar da demora, não poderia negar a Paul Auster um post. Sua abordagem leve, mesmo para os assuntos mais complicados, arranca risadas espontâneas em diversos momentos de Desvarios no Brooklin e nos leva a adquirir uma certa síndrome Davidiana, tal como a personagem interpretada por Tom Cruise em Vanilla Sky. Explico!
Ao mesmo tempo em que desejamos conhecer o final das estórias contadas pelo ex-corretor de seguros Nathan Glass – que no melhor da metalinguagem nos presenteia com a obra Os Desvarios Humanos - também ficamos adiando prazeres ao reduzir o ritmo de leitura, só para que ela dure mais. Afinal, quando percebemos o volume de folhas diminuir, começamos a sentir a falta prévia do que nos fôra caro. Nesta antítese sentimental vê-se como, às vezes, uma vida quase sem sentido pode ser modificada pelos acasos do destino.
Glass volta ao bairro onde nasceu para esperar pela morte, após uma sucessão de desventuras: aposentadoria compulsória devido a um câncer do qual convalesce, divórcio da esposa, desavença com a filha e a falta de amigos. Tudo isso, prestes a completar 60 anos.
Sem ilusões sobre o futuro, ele se ocupa com registro de casos engraçados da vida de pessoas conhecidas, assim como da própria, além de algumas visitas ao comércio do bairro. Aliás, é assim que, em um sebo, ele reencontra o sobrinho Tom Wood – jovem com um futuro promissor no mundo acadêmico que, desiludido, acaba trabalhando como taxista antes de assumir uma espécie de administração no Brightman’s Attic.
A partir deste encontro, e do convívio diário com o parente, uma reviravolta ocorre na história destes dois seres, então, desprovidos de perspectiva. E mesmo com o rumo que tomara os Estado Unidos após as eleições e da queda das Torres Gêmeas em 2001, pano de fundo usado por Auster, Tom e Glass descobrem que ainda podem ser felizes. E nós, leitores, que a literatura deveria ser sempre um grande prazer. Por isso, não poderia deixar de perguntar: o que é felicidade para você?


Ilustração: Bebel Callage

lundi 7 avril 2008

Relatos de uma guerra POP


Criticar os clássicos ou obras tidas como indispensáveis, embora possa parecer, não é um prazer para mim. Ao contrário, faz-me pensar, às vezes, que talvez o problema se dê pela minha falta de requinte intelectual.
Será que sou incapaz de apreciar a verdadeira essência literária? Ou são os eruditos quem exageram na valorização de alguns exemplares? Talvez, ainda, a culpa possa ser divida com o tempo, que seria o real responsável por esta (nossa) incompatibilidade?! Não sei ao certo (gosto não se discute?). Mas... basta um livro ser classificado com adjetivos exultantes para que eu não consiga encontrar nele o mesmo júbilo de outros leitores.
Foi o que ocorreu com Despachos do Front de Michael Herr, considerado o mais brilhante tratamento literário sobre o Vietnã. O volume fez tanto sucesso que o cineasta americano Francis Ford Coppola convidou o autor a colaborar com ele na produção de Apocalypse Now – película de 1979 que mudou o gênero de filmes de guerra e se fixou no imaginário pop. Aliás, o livro é impregnado de referências musicais e fílmicas típicos desta cultura (pop). Advêm daí o apresso, também, dos (mais) modernos.
No entanto, para mim, a coisa toda acabou tendo um efeito colateral: a supressão do ritmo de leitura. O que de forma alguma significa o desprezo, de minha parte, pela obra. Reconheço em absoluto o seu valor. À propósito, há passagens interessantíssimas sobre a vida dos correspondentes (assunto que tenho particular interesse) e fatos curiosos, como a presença de estudantes universitários, em férias, que colaboravam com seu jornal do campus (págs. 217-218).

* Somente no auge da Ofensiva do Tet havia entre seiscentos e setecentos correspondentes credenciados pelo Comando de Assistência Militar em Saigon. (...) Não havia nação pobre demais, jornal de cidade do interior tão humilde que não pudesse mandar alguém para dar uma olhada pelos menos uma vez. Estes coleguinhas, como chama Herr, por vezes escreviam suas matérias baseadas apenas em releases e no que as autoridades mandavam eles escreverem.

* Éramos chamados de viciados em perigo, abutres, lambe-feridas, fanáticos por guerra, adoradores de heróis, veados enrustidos, drogados, alcoólatras, vampiros comunistas, traidores, mais xingamentos do que consigo lembrar. Muitas pessoas nas Forças Armadas jamais perdoaram o general Westmoreland por não ter nos imposto restrições quando teve a oportunidade nos primeiros dias de guerra. Alguns oficiais e muitos soldados aparentemente ingênuos acreditavam que, se não fosse por nós, não haveria mais guerra, e nunca fui capaz de discutir com nenhum deles a respeito (págs. 224-225).

Apesar dos muitos detalhes instigantes, fui incapaz de me entusiasmar e acabei estendendo a leitura por um mês. As primeiras 70 páginas até fluíram bem, mesmo com tantas gírias dos anos 1960 e de toda a linguagem militar. Porém, dali em diante, o ritmo fôra oscilando. O que me leva a questionar o esplendor da obra. Ainda assim, não a desaconselho de um todo. Afinal, ler sempre vale a pena, principalmente quando os relatos revelam fatos reais da nossa história (do mundo). Então... mãos ao livro!

Ilustração: Moidsch

jeudi 21 février 2008

À Francesa


Tenho uma certa curiosidade mórbida por indicações literárias. Não aquelas de amigos ou alguém próximo, mas quanto aos clássicos obrigatórios para a humanidade. São estes que me fazem perder (de fato) algumas horas preciosas. Afinal, tendo a discordar de tais escolhas. Ainda assim, não consigo fugir deles com maestria.
Desta forma, acabei aventurando-me pela littérature da "minha" França querida. Em fevereiro, entreguei-me a monsieur Balzac e mademoiselle Beauvoir. E confesso, não foram horas de júbilo, não. Eles são enfadonhos! Ela em particular.
Só agora chego a novela que nomeia a compilação A mulher Desiludida, mas já me encontro com tal estado de espírito. Os antecessores A Idade da Discrição e Monólogo levam a crer que Simone era esnobe, egoísta e obcecada pela mãe (ou será que sou a única a vê-la assim?).
No primeiro, uma escritora de sucesso vê seu mundo desmoronar a medida em que envelhece e descobre que seu filho não seguirá o caminho imposto por ela. No segundo, a progenitora apresenta (novamente) distúrbios no relacionamento com a filha que morrera. Se o próximo conto seguir neste ritmo, minha tese ganhará ainda mais força. Porém isso, só saberei ao final da leitura.
Honoré, por sua vez, nos remete a França Napoleônica e revela os costumes de uma época em que a tristeza era a mais sublime tradução do belo. E assim, A mulher de 30 anos acaba por perder toda a aura que um dia, por desconhecê-la, reservei à obra.
Desejava fazer um paradoxo entre esta e Lolita de Nabokov. Pois, um idolatra a juventude, o ser obsceno e cruel que se esconde por trás de um rosto angelical, e o outro a beleza madura, instrutora e capaz de representar todos os papéis (...) e inclusive tornar-se mais bela com uma infelicidade. Ora, convenhamos, se melancolia fosse a fórmula da sedução não seria muito difícil conquistar alguns corações por aí, d’accord? Todavia, o que me impede (mesmo) de tal feita é que a marquesa d’Aiglemont não provocara, em mim, sentimentos de incapacidade atrativa como Lolita. E, apesar de todos os elogios à sua beleza, aos 30 anos, a narrativa concedeu a ela do primeiro (na adolescência) ao último momento, uma certa imponência. Assim, só me resta fazer um paralelo entre Júlia (a marquesa) e as outras mães da literatura francesa, pois, todas, destilavam sua insatisfação de viver nas costas dos filhos que tiveram.
Ao que tudo indica, nascer na França, em séculos passados, assim como ler os clássico, não era/é muito vantajoso, não.

Ilustração: Bebel Callage

lundi 11 février 2008

As histórias de minha vida.


Há muito tempo atrás, quando ainda era estudante do ensino médio, uma de minhas professoras levou para sala de aula a crônica: Leituras fundadoras (publicada no jornal Zero Hora de 7/11/99). Nela, Martha Medeiros fazia um resgate sobre a iniciação da literatura em sua infância e adolescência. Estas chamadas leituras fundadoras – expressão cunhada pelo escritor francês Christian Bobin – são, na verdade, os primeiros livros que marcaram consideravelmente a vida de cada um de nós. Sempre senti vontade de fazer a minha própria lista, mas nunca coloquei nada no papel. Contudo, nestas férias, tive uma surpresa maravilhosa ao relembrar, com uma amiga, a estória de uma garotinha que perdeu a mãe durante uma viagem para São Paulo. Indefesa, na Paulicéia Desvairada, tendo apenas seu tigrinho de pelúcia ao lado, ela precisava encontrar o tio e fugir de uma pseudo-assistente social. Fôra assim, na companhia de Pimpa, a menina criada por Marcos Rey em Sozinha no mundo, que preenchi algumas folhas de minha ficha na biblioteca da escola. Passada essa obsessão, me entreguei à narrativa de Josué Guimarães e, por vezes, sofri tanto quanto Mariana pelo jeito fugidio de Cássio em É tarde para saber. Obra que, por sinal, reli em janeiro. Foi engraçado perceber que minha implicância com Cássio não mudou muito, já a complacência com a ingenuidade de Mariana não pode ser considerada a mesma. Na adolescência (mais precisamente aos 15) fiz meu début com a literatura estrangeiras e conheci meu amado-mor, Gabriel García Márquez, em sua melhor forma: através de O amor nos tempos do cólera (lançado este ano nos cinemas). Impossível não se comover com a paixão de Florentino Ariza por Fermina Daza e sua capacidade de esperá-la por 51 anos, nove meses e quatro dias. O livro me foi emprestado por uma amiga da minha irmã, com ótimas recomendações. Aliás, devo a ela (Vanessa) meu eterno agradecimento. Pois, a partir de então, passei a colecionar (e ler, lógico) muitas outras escrevinhações do sr. Gabo. Anos mais tarde, após a descoberta de que livros eram objetos acessíveis, mesmo para proletárias como eu, deixe-me levar por títulos intrigantes como A metamorfose, de Franz Kafka e 1984, de George Orwell, sem saber ao certo ao que me levariam tais leituras. Desta forma, intriguei-me com a sorte do caixeiro-viajante Gregor Samsa, que em uma manhã acorda não mais no mesmo corpo com o qual fôra dormir, mas transformado em um inseto monstruoso. Assim como, revoltei-me com o Grande Irmão e seu (partido) IngSoc. Porém, não posso negar o divertimento gerado pelas contradições do duplipensar (“Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”) e da novílingua. Já no gênero jornalístico me encantei pela narrativa do grande mestre da reportagem, Gay Talese, e suas excepcionais histórias. Se Deus permitir, um dia irei escrever tão bem quanto ele e, principalmente, com o mesmo espírito e perseverança existentes em Fama e Anonimato e A mulher do próximo. Depois de tantas recordações, só posso dizer que apesar de não ter sido criada sob uma grande influência literária, creio que consegui formar uma base bastante sólida para todas as leituras seguintes que fiz e que ainda farei durante a minha vida. E você, como fez a sua?

Ilustração: Bebel Callage

P.S. Este texto também está publicado em: DIZem BUCHA